A cabeça volta sempre à mesma pessoa.
Ao acordar. No caminho para o trabalho. Quando ouve uma música. Quando o telemóvel vibra e, por um segundo, pensa que pode ser ela. Ou ele.
Revê conversas. Procura sinais que lhe tenham escapado. Abre o perfil da outra pessoa e fecha-o logo a seguir. Escreve uma mensagem, apaga-a, volta a escrever.
E a meio da noite pesquisa: «como esquecer alguém que você ama».
Ou então escreve uma frase mais curta, que diz tudo: «o amor me rejeitou».
Se chegou aqui assim, saiba que isto que está a sentir tem uma razão de ser. Não é fraqueza. Não é exagero.
Porque é que dói tanto
Há quem diga: «Foram só uns meses. Porque é que estou assim?»
Ou: «Eu sei que não me fazia bem. Então porque é que não consigo largar?»
Quando uma relação acaba, não se perde só a pessoa. Perdem-se as rotinas. Os planos. A mensagem do bom-dia. O futuro que se tinha imaginado. Uma versão de si que só existia ao lado daquela pessoa.
E, quando há rejeição, há outra dor por baixo.
A rejeição toca num medo muito antigo: o de não ser suficiente para ser amada. Ou amado. Por isso, uma rejeição de agora pode acordar outras, mais antigas, e doer muito mais do que a relação parecia valer.
Um estudo com pessoas que tinham passado por uma separação recente encontrou, no cérebro, sinais parecidos com os da dor física. Quando diz que lhe dói o peito, talvez não seja só uma maneira de falar.
Esquecer, no sentido de apagar, raramente acontece
Vou ser honesta consigo.
Esquecer alguém que se amou, no sentido de apagar, raramente acontece. E tentar à força costuma prender mais. É como pedir a alguém que não pense num elefante cor-de-rosa.
O que pode acontecer, com o tempo, é outra coisa. A pessoa deixa de ocupar o centro. A lembrança continua lá, mas já não manda no seu dia. Já não decide o seu humor quando acorda.
Esquecer não é o mesmo que deixar de doer.
E deixar de doer não acontece por decisão. Acontece aos poucos, quando se dá lugar ao que se sente, em vez de o empurrar para longe.
O que pode ajudar nos dias mais difíceis
Não há receitas. Mas há gestos pequenos que dão algum chão.
- Quando vier a vontade de mandar mensagem, escreva tudo o que lhe quer dizer, sem enviar. Depois espere vinte minutos antes de decidir. A vontade costuma vir em ondas, e as ondas baixam.
- Silencie, sem apagar. Não precisa de apagar fotografias nem de bloquear ninguém para sempre. Pode só silenciar a conversa e arquivar as fotografias por uns dias. Silenciar não é desistir. É dar tempo à dor sem a alimentar a cada notificação.
- Não atravesse a noite sozinha. As noites costumam ser o pior. Combine uma chamada com alguém de confiança, nem que sejam dez minutos.
- Coma alguma coisa. Saia à rua. Parece pouco. Num dia destes, é muito.
Se precisar de ajuda para hoje, a página não consigo esquecer alguém que amo tem estes passos, com um espaço para escrever que não guarda nada.
Quando a pessoa era a sua casa num país novo
Para quem emigrou, um fim de relação pode ter um peso que poucas pessoas entendem.
Às vezes, foi por essa pessoa que veio para Portugal. Às vezes, era a única família que tinha aqui. A casa era dela. Os amigos eram dela. A cidade só fazia sentido a dois.
E de repente fica sem a pessoa e sem a rede. Longe da mãe, das amigas de sempre, do sítio onde se conhece o caminho de olhos fechados.
«E agora, o que é que eu estou aqui a fazer?»
Se é o seu caso, não se apresse a responder a essa pergunta. Decisões grandes, como voltar ou ficar, merecem um tempo com mais luz. Para já, chega cuidar do dia de hoje.
O que a psicanálise nos ajuda a perceber
Freud chamou «trabalho do luto» a este caminho lento. Em «Luto e melancolia», de 1917, descreve como, depois de uma perda, a pessoa se vai desligando do que perdeu aos poucos, lembrança a lembrança. Cada sítio, cada música, cada hábito tem de ser revisitado. Dói, e não se faz de uma vez.
Por isso esquecer à força não funciona. O luto não se salta. Atravessa-se.
Freud notou outra coisa: quando a perda não encontra espaço para ser chorada, a dor pode virar-se contra a própria pessoa. É aí que aparecem o «não fui suficiente» e o «a culpa foi minha».
Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que passou muitos anos a acompanhar mães e bebés, escreveu em 1958 um texto chamado «A capacidade de estar só». A ideia é simples e muito bonita: só conseguimos estar sós sem nos sentirmos abandonados porque, um dia, estivemos sós na presença de alguém. Como um bebé que brinca tranquilo enquanto a mãe está ali, por perto, sem lhe pedir nada.
Quando uma relação acaba, às vezes não se perde só a pessoa. Perde-se também essa presença que tornava possível estar consigo. E a solidão de agora pode acordar faltas muito mais antigas.
Na terapia, uma parte do trabalho é essa: voltar, devagar, a conseguir estar consigo, sem que isso pareça abandono.
«Porque é que me acontece sempre o mesmo?»
Há uma pergunta que muitas vezes chega depois da dor: «Porque é que escolho sempre o mesmo tipo de pessoa?»
Ou: «Porque é que acabo sempre a dar mais do que recebo?»
Isto não quer dizer que escolheu sofrer. Nem que a culpa foi sua.
Quer dizer, talvez, que há uma história que se repete. A forma como aprendemos a amar, o lugar que aprendemos a ocupar nas relações, o que acreditamos que temos de fazer para não sermos deixadas.
Na terapia de orientação psicanalítica, não perguntamos só «como é que eu esqueço esta pessoa?». Perguntamos também:
O que é que esta relação tocou em si?
O que é que perdeu, além da pessoa?
O que tem medo de sentir se deixar de pensar nela?
Que lugar aprendeu a ocupar quando ama alguém?
Se isto lhe faz sentido, talvez lhe interesse ler sobre os padrões que se repetem, ou o texto sei o que deveria fazer, mas não consigo.
Se a dor se torna demais
Às vezes a dor de uma separação junta-se a outras dores e fica pesada demais para carregar.
Se pensar em fazer-se mal, ou em desaparecer, fale hoje com alguém. Pode ligar 1411, a Linha de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico, gratuita, ou SNS 24, 808 24 24 24, opção 4, a qualquer hora. Se estiver em perigo agora, ligue 112.
E se a tristeza se instalou em quase todos os dias há mais de duas semanas, o teste de depressão pode ajudar a perceber em que ponto está.
Perguntas frequentes
Quanto tempo demora a esquecer alguém?
Não há prazo certo. Depende do tempo da relação, da forma como acabou e do que ela significava. Se, passados meses, a dor continua a impedir o dia a dia, vale a pena procurar ajuda.
É normal querer voltar, mesmo sabendo que não me fazia bem?
É muito comum. Oscilar entre querer voltar e querer esquecer faz parte. Na terapia olha-se para essa oscilação sem julgamento, para perceber o que ela protege.
Devo mandar mensagem à outra pessoa?
Não há uma resposta certa para todos. Ajuda esperar que a onda baixe antes de decidir, e perguntar-se o que espera que essa mensagem resolva.
Posso fazer terapia por causa de uma separação, sem a outra pessoa?
Pode. As sessões são individuais: o foco é aquilo que está a viver.
Não precisa de ter esquecido para começar
Talvez ainda pense nessa pessoa todos os dias.
Talvez ainda tenha esperança. Ou raiva. Ou as duas coisas ao mesmo tempo.
E tudo bem.
Não precisa de chegar à terapia já recomposta. Pode chegar exatamente assim, a meio da dor.
Às vezes, o que mais custa não é esquecer alguém. É lembrar-se de si.
Vamos conversar?
Fontes
- Freud, S. (1917), «Luto e melancolia» (Trauer und Melancholie). Standard Edition, vol. 14, pp. 237–258: https://pep-web.org/browse/document/SE.014.0237A
- Winnicott, D. W. (1958), «A capacidade de estar só» (The capacity to be alone). International Journal of Psycho-Analysis, 39, pp. 416–420: https://pep-web.org/browse/document/IJP.039.0416A
- Kross, Berman, Mischel, Smith e Wager (2011), «Social rejection shares somatosensory representations with physical pain», PNAS: https://doi.org/10.1073/pnas.1102693108
- Organização Mundial da Saúde, «Mental health: strengthening our response»: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-strengthening-our-response
- Governo de Portugal, linha 1411 (10/09/2025): https://portugal.gov.pt/pt/gc25/comunicacao/noticias/nova-linha-de-prevencao-do-suicidio-entra-em-funcionamento
- SNS 24: 808 24 24 24, opção 4 (aconselhamento psicológico, 24 horas).

